Satish Kumar no Brasil: Curso enfatiza o conceito de “comunidade resiliente”

Curso enfatiza o conceito de “comunidade resiliente”

Valor Economico, 20th Jun, 2011

Há 20 anos, o cientista inglês James Lovelock dava o primeiro curso do Schumacher College sobre a Teoria de Gaia, segundo a qual o planeta Terra é um ser vivo capaz de se autorregular. O prédio da escola, com mais de 600 anos, fica onde era a antiga sede dos correios da cidade e se assemelha a um pequeno castelo de pedras no meio de árvores gigantes e centenárias. A sensação é de algo que resiste ao tempo.

Em seu entorno, um jardim imita uma floresta natural com árvores, flores e diversas espécies comestíveis utilizadas pela cozinha da escola. Estudantes, voluntários e professores residentes formam uma comunidade na qual todos têm suas tarefas. É um exemplo prático de uma comunidade quase resiliente, conceito trabalhado pelo colégio.

“Aqui, no lugar de sustentabilidade, costumamos falar em resiliência, que é a capacidade de um organismo resistir a choques externos sem ser destruído”, ensina Satish Kumar, um dos fundadores da escola. “Uma comunidade resiliente é aquela que precisa de pouco combustível fóssil, que fomenta o comércio local, usa material da região para as construções e cuja economia não depende tanto de importação de outros países”, diz.

Com seus 75 anos, Kumar é quem está por trás da criação da escola. Nascido no Rajastão, na Índia, ele está sempre sorrindo e disposto a ensinar. Na adolescência, foi monge. Fugiu do monastério ao ler sobre as ideias de Mahatma Gandhi que dizia que a espiritualidade deveria ser praticada pelo homem na política, nas relações sociais e no dia-a-dia. No final dos anos 1960, fez uma caminhada pela paz que durou mais de dois anos, passando por quatro países que detinham a tecnologia da bomba atômica, União Soviética, França, Inglaterra e Estados Unidos.

A caminhada foi relatada em seu livro “No Destination”, (“Sem Destino”) editado pela Green Books. Kumar divide as tarefas do Schumacher College com o cargo de editor da revista “Resurgence”, uma das principais vozes do movimento verde europeu.

“Criamos uma escola que leva em conta a criatividade, subjetividade, beleza e imaginação, que são recursos necessários para resgatar os valores que o mundo perdeu”, diz Kumar. “Nossa missão é inspirar pessoas para mudanças positivas”.

A filosofia do “pequeno é belo” tem sido o norte de suas atividades e ainda hoje é o caminho na construção de comunidades mais resilientes. Kumar acredita que “a melhor forma de resolver um problema global é agindo de forma local”. É simples: “Tem gente que quer salvar o mundo, mas ainda não aprendeu a cuidar de si mesmo. Se alimenta de forma errada e vive estressado. O cuidado com o mundo, começa em cada um”.

Tanto é verdade que no Schumacher a cozinha é parte fundamental da escola e do processo de aprendizagem. A refeição vegetariana, orgânica e saudável é preparada por chefs experientes com a ajuda dos alunos e é servida diariamente para uma média de 50 pessoas, entre estudantes e funcionários. O que sobra é transformado em adubo, tarefa que também cabe a quem está lá.

Apesar de estar localizado na Inglaterra e ter características ocidentais – como possuir um pub dentro do prédio -, o Schumacher College tem um forte toque da cultura indiana, com aula de ioga e meditação.

A falta de hierarquia entre as pessoas e divisão de serviços é fruto de sua convicção de que dentro de uma sociedade ninguém é mais importante do que o outro. “O que o presidente pode fazer para uma pessoa que está doente? Ou o que o engenheiro poderia fazer por nós quando estamos com fome?”, questiona. A autenticidade dos conceitos vividos na escola mexe de forma muito profunda com os seus integrantes.

“Vivemos numa sociedade que nos ensina a ser materialistas, a querer o melhor carro e o celular mais novo. Não somos incentivados a pensar que todas as pessoas têm a mesma importância”, conta Ricardo Mastroti, gerente corporativo de sustentabilidade da InterCement, área de cimento da Camargo Corrêa. “Ali, tudo é colocado em prática. É verdadeiro”.

Para Mastroti, em tempos de mudanças climáticas, o conceito de resiliência pode ser um novo norte para as empresas. “A palavra sustentabilidade é maravilhosa. Pela primeira vez, a noção de tempo e das novas gerações são incluídas na forma de fazer negócios. Mas resiliência requer mudanças no modo operante. É encontrar soluções integrais mais harmônicas e conectadas com o ambiente.”

Mastroti gosta de citar o exemplo de uma empresa que faz cimento com o CO2 captado de uma termelétrica e misturado com água do oceano. “É um processo muito mais integrado com a natureza. Evita uma logística complexa que depende de diversos fatores externos como mineração, aquecimento do forno, transporte, etc. Ou seja, é mais resiliente”, afirma Mastroit.

Este ano, a escola lança o novo curso de mestrado “Economia para Transição”, que trata de formas para criar um novo sistema econômico compatível com a ideia de comunidades com baixo consumo de carbono e mais resilientes. Economia é também um novo desafio para a própria escola. Com o objetivo de aumentar os lucros, até 2015 outros dois cursos de pós-graduação serão criados. Isso sem perder de vista a ideia de permanecer pequeno e belo. Satish Kumar vem ao Brasil em agosto deste ano como palestrante de conferência realizada pela Symnetics, Strategy Execution Summit. (G.P.)

 

Ciência holística é ferramenta para limitar degradação

Valor Economico, 20th Jun, 2011
Desde maio de 2010, a principal tarefa de Andressa de Mello, 30 anos, gerente de sustentabilidade da Natura é finalizar a estratégia do programa de resíduos que a empresa deverá seguir pelos próximos dez anos. O plano é potencializar o projeto de logística reversa que já funciona como piloto em algumas cidades do Brasil, aumentar o uso de materiais reciclados nas embalagens e fomentar o desenvolvimento de cooperativas na região do entorno da fábrica em Itapecerica da Serra. Para isso, Andressa aposta na inclusão de aspectos mais humanos na cadeia de resíduos e na tarefa de mudar a visão da sociedade sobre o conceito que se tem sobre o lixo. “Na natureza tudo é reaproveitado como parte de um ciclo. Lixo é uma criação humana”, afirma.

A ideia está bem fundamentada. Entre 2009 e 2010, Andressa fez um mestrado no Schumacher College, escola de ciências holísticas e ecologia profunda, situado na pequena cidade de Totnes, sudoeste da Inglaterra. Para escrever a dissertação final, durante sete meses visitou cooperativas de catadores, recicladoras, embaladeiras no Brasil e na Colômbia. Conversou com consumidores e revendedores de produtos. “O curso em ciências holísticas conecta diferentes ciências, como matemática e biologia, e te manda ir ao fundo do problema antes de desenhar qualquer conclusão”, diz.

“Procurei um mestrado que complementasse o conhecimento adquirido dentro da empresa e agora estou colocando em prática o que aprendi”, afirma ela.

Criado em 1991, com o objetivo de encontrar respostas para os dilemas do planeta, o Schumacher College é reconhecido mundialmente por sua filosofia e métodos de aprendizagem fora do convencional. Com a ideia de que grande parte dos problemas no mundo surgiu da ciência ocidental, cartesiana e reducionista que não reconhece outros saberes e não enxerga a relação entre diferentes fenômenos, a escola ensina uma ciência que estimula o uso da intuição, emoção e conexão com a problemática.

“A holística é uma ciência de qualidade mais adequada para lidar com a degradação ambiental e social do mundo”, explica Stephan Harding, coordenador do mestrado em ciências holísticas do colégio, e autor do livro “Terra Viva – Ciência, Intuição e Evolução de Gaia”, publicado no Brasil em 2008, pela editora Cultrix.

O nome faz homenagem ao economista alemão E.F Schumacher, autor do livro “Small is beautiful: economics as if people mattered” (O Negócio é ser pequeno: um estudo de economia que leva em conta as pessoas), publicado em 1973. No livro, Schumacher defende o desenvolvimento do comércio local, a produção em pequena escala direcionada às necessidades das pessoas e o uso de tecnologia simples. Essa filosofia ficou conhecida como “o pequeno é belo”. No quadro de professores aparecem profissionais como o físico Fritjof Capra, ambientalistas como Paul Howken e Wolfgang Sachs, e economistas como Bernard Lietaer e Manfred Max-Neef. Os cursos podem ser de curta ou longa duração.

Mas, se um tempo atrás, falar em emoção, intuição e felicidade dentro das companhias era um tabu, hoje a conversa é outra. “As empresas se abriram muito para os aspectos humanos, valores e qualidade de vida. Sabem que se não for por esse caminho, perdem oportunidades e talentos”, afirma Maria Auxiliadora Amiden, gerente da área de educação da Symnetics, consultoria em gestão de estratégia para sustentabilidade empresarial.

Economista interessada em filosofia indiana, ela descobriu o Schumacher College em 1998, quando o economista Amartya Sen ganhou o Prêmio Nobel por suas contribuições com a teoria do bem-estar social. “Li a bibliografia usada por ele e descobri nomes como E.F. Schumacher e o filósofo Rabindranath Tagore”, lembra. Em 2010, Maria Auxiliadora finalmente se matriculou no curso Economia da Felicidade, com professores do Butão, como Dasho Karma Ura, presidente do Centro para Estudos do Butão, em Thimphu, capital do país.

Para ela, as dinâmicas em grupos são um dos momentos mais proveitosos do curso, com rodas de conversas nas quais o professor dialoga com os alunos e juntos formam numa ideia. “São discussões construtivas sem nenhum senso de julgamento sobre a opinião do outro, sem julgar o que está certo ou errado. As pessoas dizem o que realmente pensam”, afirma.

A mesma prática foi estabelecida no seu grupo de trabalho com 20 representantes de empresas dentro de Symnetics. ” Esses debates alcançam um nível muito mais profundo de entendimento. Ideias completamente conflitantes, que no início parecem improváveis, tornam-se soluções viáveis”.

Maria Auxiliadora lembra que embora o conteúdo dos cursos oferecidos seja de excelente qualidade, uma das principais lições na passagem pelo Schumacher está nas atividades fora de sala de aula, que mostram o mínimo de hierarquia vivido ali. Passar aspirador de pó, cozinhar, fazer jardinagem e limpar banheiro fazem parte da curiosa rotina dos estudantes. “É uma oportunidade de oferecer um serviço a outras pessoas”, afirma. “O mais interessante: esse trabalho é compartilhado pelos próprios professores.”

A mínima hierarquia entre as pessoas, “também é uma forma de estimular a criatividade”, explica Cristina Carvalho Pinto, presidente do Grupo Full Jazz, que trabalha com marcas que querem fazer negócios mais amigáveis. ” As pessoas ficam mais a vontade para dar suas opiniões. Somos uma fábrica de novas ideias e acredito que todo mundo na empresa tenha sempre alguma coisa para dizer”, afirma.

Cristina, que conheceu o colégio em 2007 e sempre manteve uma relação estreita com Hazel Henderson — economista e futurista ligada ao corpo de professores do Schumacher – explica que o êxito das atividades da escola está baseado na filosofia oriental sobre o conhecimento. “Para o oriental, a sabedoria não implica na concessão de privilégios. O conhecimento existe para servir. Isso faz toda a diferença”, afirma.

“Na cultura oriental, o verdadeiro conhecimento é aquele que acontece quando a mente rearranja as informações que foram adquiridas por meio de estímulos. É ter um insight, uma nova visão, ser original. No Grupo Full Jazz também aprendemos a trabalhar dessa forma.”

3 responses to “Satish Kumar no Brasil: Curso enfatiza o conceito de “comunidade resiliente”

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