Coke Isn’t It/ Garrafas ecológicas e as implicações para o Brasil

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Garrafas ecológicas e as implicações para o Brasil

Recentament, estive alguns dias em Joinville para ministrar um curso intitulado “Pensamento Integral” na Sustentare Escola de Negócios. Trata-se de um curso em que ensino a Teoria do Caos e da Complexidade para estudantes de administração, a fim de ajudá-los a pensar de uma forma mais integral e sistêmica. O objetivo principal do curso é ajudar os alunos a se tornarem mais criativos e inovadores em sua forma de pensar, de maneira a melhor compreenderem os complexos problemas que enfrentam em suas organizações.

Um exemplo particular que eu lhes apresentei se refere a um episódio ocorrido com pescadores no Canadá na década de 1990. Visando elevar a população de bacalhau, os pescadores tiveram a ideia de abater as focas, que são os predadores naturais do bacalhau. Mas o que aconteceu foi o inverso, ou seja, à medida em que diminuía a quantidade de focas, aumentava a quantidade de lulas, e as lulas são também predadores do bacalhau. Assim, embora os pescadores tivessem pensado que matar focas resultaria no incremento da população de bacalhau, o que de fato ocorreu foi a diminuição expressiva da população de bacalhau. Este é um simples exemplo do que pode acontecer quando não se pensa sistemicamente, ou seja, não se considera todas as possíveis implicações de uma ação.

Um outro exemplo que apresentei se refere à Coca Cola, em como esta organização está produzindo novas garrafas de plástico ecológicas, feitas a partir do que a Coca Cola nomeia de “PlantBottle”. O material da garrafa parece com o plástico PET, mas na verdade é de base vegetal. A matéria-prima é a cana-de-açúcar brasileira, que é  convertida em bioetanol, um dos ingredientes-chave na fabricação de “PlantBottle”. No ano passado, a Coca-Cola fabricou mais de 2,5 bilhões de embalagens “PlantBottle” ao redor do mundo, e este ano elas estarão disponíveis em mais de 20 países.

Trata-se de algo bom para o ambiente e bom para o Brasil, não é mesmo? Porém, vamos pensar sistemicamente a partir de uma perspectiva mais ampla e tentar analisar as implicaçōes.

Por um lado, a cana-de-açúcar vem de plantações geridas de forma sustentável no Brasil, onde são regadas naturalmente e é utilizado adubo orgânico. Essas plantações estão bem longe da Amazônia, e, portanto, não há invasão deste tipo de cultivo em uma das regiões de maior biodiversidade do planeta.

No entanto, a Coca Cola quer dobrar suas vendas globais de todos os produtos nos próximos 10 anos. Sua visão de futuro é de direcionar seus esforços de vendas para as áreas mega-metropolitanas do planeta, sendo que em sua lógica crescimento não está relacionado à sustentabilidade. O sistema complexo “não-linear” considera “loops de feedback”, mas atualmente a maioria das empresas não consegue ver que o crescimento linear ano-a-ano não é compatível com um planeta de recursos finitos.

E no que diz respeito ao Brasil, o que significa isto? Maior plantação de cana-de-açúcar para a fabricação de plástico e álcool significa menos espaço para plantação de alimentos. Isto naturalmente leva a um aumento no custo dos alimentos para uma população em crescimento. Uma vez que a cana-de-açúcar não pode ser cultivada na Amazônia, o gado certamente está sendo deslocado para lá, o que acabará por contribuir para a destruição da biodiversidade tão necessária para a manutenção da vida em nosso planeta. Também, o plástico “PlantBottle” não é biodegradável, e o que dizer das milhas que cada garrafa percorre enquanto viaja ao redor do mundo?

Como se pode ver, o que inicialmente parece uma excelente solução ecológica, na verdade pode realmente não ser. Precisamos pensar holísticamente ao procurar soluções e isso é possível.

Translation: Maria Auxiliadôra Moraes Amiden

Coke Isn’t It

Recently I spent a few days in Joinville at Sustentare Escola de Negócios teaching a course I call “Pensamento Integral”.  On this course I teach chaos and complexity theory to business students, in order to help them think in a more integral or systemic manner.  The main goal of the course is to help the students become more creative and innovative in their thinking, in order to be able to better model the complex problems that they are all facing in their organisations.

One particular example that I told them about was about how fishermen in Canada in the 1990s wanted to cull seals, in order to increase stocks of cod, since seals are the natural predators of cod.  But what happened was that because there were less seals, there were more squid, and squid are also predators of cod. So although the fishermen thought that killing seals would lead to more cod, in fact the opposite happened and there were even less cod! This can be the problem when you are not taught to think systemically, and you do not think through all the implications of your actions.

I then went on to talk about Coca Cola, and how they are producing new eco-friendly plastic bottles, made from what Coca Cola call “PlantBottle”. This looks and feels just like PET plastic, but in fact is made from plant material.  The raw material is Brazilian sugarcane, which is then converted into bioethanol, which is one of the key ingredients. Last year Coca Cola created over 2.5 billion PlantBottle packages around the world, and this year they will be available in over 20 countries worldwide.

This is a good thing for the environment and a good thing for Brazil isn’t it? Well let us think systemically, from a wider perspective and see what the implications are.

On the one hand, the sugarcane comes from sustainably managed plantations in Brazil, which are watered naturally and organic fertilizer is used.  These plantations are also far from the Amazon, and therefore there is no encroachment into this biodiverse region.

However, Coca Cola want to double their global sales of all products in the next 10 years.  Their vision of the future is one where they will target their efforts in the mega-metropolitan areas on the planet, and therefore for them sustainability has no relation at all to growth.  In complex “non-linear” systems we always consider feedback loops, but at this moment in time most companies can not see how linear growth year-on-year is not compatible with a planet of finite resources.

And in respect to Brazil, what does this mean? Well more harvesting of sugarcane for plastic and petrol means less harvesting of crops for food, with a subsequent increase in the cost of food for our still growing populations.  While sugarcane may not be grown in the Amazon, is certainly is destroying the biodiversity so necessary for maintaining life on our planet, and cattle are certainly being displaced to the Amazon.  PlantBottle plastic is not biodegradable, and what of the air-miles of each bottle as they travel around the world?

So as you can see, what initially may seem as an eco-friendly solution may actually turn out to be anything of the sort, and we really need to be more creative when looking for solutions.

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