Compaixão e Perdão em Jóia Rara

Joia Rara

Há alguns meses atrás escrevi um artigo sobre a novela brasileira Jóia Rara (ver em In Praise of Joia Rara – Globo TV’s Buddhist Soap Opera). Trata-se de uma novela realmente fabulosa a qual Maria e eu viemos acompanhando, inclusive nas semanas que passamos no Reino Unido, período no qual acompanhamos via site da Rede Globo na internet. Vale à pena ler meu primeiro artigo (escrito em inglês) a respeito da novela, pois, aqui não serei repetitivo. Gostaria de continuar a partir do outro artigo, explorando nesse os temas sobre compaixão e perdão.

The Romantic Conception of LifeAntes, porém, gostaria de mencionar que estou no meio da leitura do livro de Robert J. Richards, The Romantic Conception of Life – Science and Philosophy in the Age of Goethe. Este trabalho monumental explora o período entre o final do século XVIII e início do século XIX na Alemanha e faz uma análise em detalhes da ciência, filosofia, poesia e literatura de grandes intelectuais como Goethe, Schiller, Schelling, os irmãos Schlegel, Humboldt e Fichte. Tantos temas são explorados no livro que é praticamente impossível fazer uma resenha. Entretanto, um elemento do Movimento Romântico que gostaria de brevemente mencionar aqui é a noção de bildung (uma palavra em alemão).

Bildung é um conceito maravilhoso que para mim representa a jornada interior que um filósofo, cientista ou poeta precisa fazer de forma a entender os segredos da natureza, da psicologia, da estética e da ética. Não é suficiente somente adquirir conhecimento, é necessário haver um movimento contínuo de autodesenvolvimento e de cultivo da autoconsciência, processo esse que infelizmente perdemos em nossa cultura atual.

O que isso tem a ver com uma novela brasileira? Bem, como já havia mencionado anteriormente no outro artigo, em geral as novelas brasileiras têm muita discussão, pessoas falando alto e brigando. Entretanto, isso não acontece somente no Brasil, quando comparamos com séries norte-americanas, no canal Warner, por exemplo, tanto os programas como as séries apresentadas nos intervalos são muito violentas. No topo de todas essas, apresentado em todo o mundo, temos a série Revenge!, um programa norte-americano que me causa um grande mal estar e sentimento de desespero em meu âmago.

Em Jóia Rara, a trama é bastante complexa, sendo que os personagens sofrem grandes mudanças durante o decorrer da história. Um desses personagens é Ernest Hauser, o presidente de um conglomerado de empresas e muito poderoso, que sofre uma grande virada em sua vida. Seu filho ilegítimo, Manfred, conseguiu roubar toda a sua fortuna e se tornar o novo presidente do grupo, deixando Ernest sem nada. De forma a alcançar essa posição, tentou assassinar Silvia, uma pessoa que sabia muito sobre suas falcatruas e ações ilícitas e também chantageou Ernest que em seu passado, acidentalmente, assassinou sua esposa, fato esse que nunca revelou a seus filhos. Manfred forçou Ernest a deserdá-los, deixando-os, assim, totalmente desprovidos de recursos.

ernest-perdao

O elenco continua apresentando uma excepcional performance semana após semana. José de Abreu, que interpreta Ernest Hauser, e Bruno Gagliasso, que faz seu filho Franz Hauser na trama, são excelentes exemplos desse desempenho excepcional. Como um britânico, para mim José de Abreu está na mesma estatura que Sir Alec Guinness, impingindo uma delicada seriedade a seu personagem que está no limite de alcançar sua epifania em sua trajetória de redenção. Sua própria vida, diz a Franz, acabou, e agora o que tem a fazer é tentar ajudar seu filho a ser livre novamente.

Franz, ao mesmo tempo em que descobre terríveis revelações do passado de seu pai, é acusado por Manfred de assassinar Silvia, e, por isso, está escondido da polícia. Gagliasso é um ator que para mim tem a rara habilidade de interpretar de forma bastante realística, atraindo totalmente a atenção do telespectador que entra profundamente em seu desespero e em suas emoções. Não é preciso muito para dar-se conta de que Gagliasso é um ator que realmente vive a sua dor, com todo o seu coração e alma, em um movimento harmonioso entre seus sentimentos e a transformação de seu pai, que aos poucos vai tomando consciência sobre suas ações no mundo, brilhantemente apresentada em diferentes nuances pelo ator José de Abreu.

Carmo Dalla Vecchia

Não tenho muito espaço nesse artigo para falar de muitos dos atores, mas no extremo oposto de Franz (o bom sujeito) e de Ernest (o mau sujeito que vai se tornando bom) está Manfred, cuja ascensão para a alta sociedade brasileira da época é acompanhada por uma igualmente rápida elevação de sua loucura. Em outros tipos de novelas, um personagem como esse seria facilmente traduzido em um cliché como um vilão em um cartoon. Mas, Carmo Dalla Vecchia, que interpreta Manfred, precisa também ser aplaudido por alcançar um contínuo e elevado nível de intensidade de seu personagem sendo capaz de tirar o fôlego do telespectador em muitas cenas.

Marcelo Médici

Na trama paralela também ocorrem situações que representam dilemas morais que causam dores psicológicas. As autoras de Jóia Rara precisam também ser aplaudidas de pé por serem capazes de fazer a história evoluir de forma profundamente envolvente. Mesmo personagens como o coreógrafo Joel, interpretado de forma deliciosamente cômica por Marcelo Médici, teve condições de evoluir na trama, adicionando momentos preciosos e sensíveis, algo que precisamos muito para suportar a montanha russa de emoções promovida pelos demais personagens.

Joia Rara

O grande guia que orienta a transformação de Ernest sem dúvida é a adorável Pérola, interpretada pela jovem atriz Mel Maia, a reencarnação de Ananda Rinpoche, o líder espiritual no Budismo. É Pérola que implora a Franz para perdoar seu pai, perdão esse que Franz acredita ser impossível, uma vez que há muitos crimes cometidos por seu pai que vão sendo revelados a ele, incluindo a prisão de sua esposa por dez anos e o sequestro e abuso de crianças em trabalho escravo em minas de carvão. Esta cena intensa foi fenomenal e é por esses momentos que podemos dar-nos conta de que talvez Jóia Rara seja a forma brasileira de bildung.

Quantas vezes você viu tal nível de compaixão e perdão em uma novela ou série em alguma parte do mundo? Não consigo me lembrar de nenhuma nesse instante. Se queremos realmente educar nossas crianças, precisamos apresentar a elas programas como Jóia Rara. Porém, como bildung é algo que vai sendo alcançado ao longo de toda uma vida, se quisermos uma melhor sociedade, precisamos de muitos mais programas com esse elevado nível de qualidade e amor.

All You Need Is Love.001

Agradecimentos

Estou muito agradecido a minha esposa Maria por sua excelente tradução do meu artigo, e também pelo apoio do fã-clube da Joia Rara (www.facebook.com/joiararareal).

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4 responses to “Compaixão e Perdão em Jóia Rara

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